
Da vulnerabilidade à experiência técnica em automação de testes com IA: a cultura AI Fluency na prática
Na engenharia de software, o abismo entre a teoria aprendida em universidades e a prática diante de um código complexo pode ser assustador. Quando a urgência por inovações bate à porta, o medo do “não sei por onde começar” costuma paralisar até os profissionais mais dedicados.
Hoje viemos contar uma história que prova que humildade técnica, visão de negócio e uma cultura de fluência em inteligência artificial é uma combinação capaz de transformar vulnerabilidades em um salto na carreira.
Suelen Lemos, profissional de qualidade de software na Squadra, transicionou da equipe de suporte para a equipe de testes e assumiu o desafio de estruturar, do zero, a automação de testes de um sistema crítico. Além de acelerar a sua evolução profissional, o seu projeto serviu de inspiração para a criação de um turing bot para apoiar inúmeras outras iniciativas de QA na Squadra.
O ponto de partida
Suelen iniciou sua trajetória na área como profissional de suporte e, pelo rápido domínio das regras de negócio, migrou para a equipe de testes funcionais manuais. Porém, à medida que a aplicação crescia, a execução manual de cenários tornou-se um gargalo:
“Eu me deparava com um volume crescente de cenários manuais e um tempo cada vez mais reduzido para executá-los com a qualidade necessária. Foi nesse contexto que entendi que a automação seria o caminho para ganhar eficiência, otimizar meu tempo e elevar a confiabilidade dos testes.”
Apesar de ter concluído pós-graduação e diversos cursos teóricos na área, na prática ela se deparou com um sistema altamente complexo, crítico e sem documentação formal das regras de negócio, o Geosite Telecom, plataforma baseada em geolocalização e utilizada por mais de 500 provedores de internet para gerir toda a documentação e manutenção de redes de fibra óptica (FTTH).
Suelen precisava criar a automação dos testes da plataforma do zero, definindo arquitetura, padrões e escopo, tudo isso sem experiência prática:
“Apesar de ter conhecimento teórico em automação e experiência prática com Cypress em páginas web estáticas, eu nunca havia estruturado um projeto de automação do zero, tampouco tinha prática com Playwright. Diante da complexidade do sistema, percebi que precisaria de apoio para dar o primeiro passo. A melhor decisão que tomei foi pedir ajuda, sem deixar o orgulho ou o medo do ‘eu não sei’ me paralisarem.”
A IA como geradora de código e mentora individual
Com o apoio de um especialista, Stenio de Abreu, Head of Chapter na Squadra, Suelen conectou o Claude Code ao repositório do Geosite Telecom. A grande virada na sua evolução técnica ocorreu na forma como ela passou a interagir com a IA. Em vez de utilizá-la apenas para escrever códigos, Suelen adotou uma postura investigativa. A cada sugestão dada pela IA, como a escolha do framework Playwright, a regra era sempre perguntar o porquê:
“O Claude Code foi muito além de gerar código: ele entendeu como as ferramentas do projeto funcionavam e ajudou a construir estratégias completas. Esse hábito de sempre perguntar o porquê por trás de cada decisão foi o que transformou a ferramenta em um verdadeiro tutor de aprendizado.”
Essa dinâmica transformou o processo de escrita do código em uma mentoria individual e contínua. O projeto nasceu e Suelen compreendeu profundamente a função de cada camada, cada arquivo e cada uma das boas práticas aplicadas.
O protagonismo insubstituível do humano: quando o conhecimento do negócio guia a IA
A evolução de Suelen não se deu pela submissão cega à IA, mas pela afirmação do seu próprio papel crítico como especialista nas regras de negócio do sistema. Em diversos momentos, a IA gerou códigos e asserções que eram sintaticamente corretos, mas funcionalmente inconsistentes com o mundo real. Foi o olhar atento de Suelen que identificou e corrigiu esses desvios:
“Houve situações em que a IA concluía o cadastro de um equipamento em um local completamente fora de contexto, como no meio de uma floresta. Nesses casos, meu papel foi identificar a inconsistência e ajustar a automação para que o cadastro respeitasse as regras reais do negócio. Isso reforça que a IA acelera o processo, mas o julgamento humano continua sendo insubstituível.”
O domínio que Suelen tinha sobre os processos permitiu orientar a IA em cenários onde não havia documentação formal. Ao longo do projeto, ela não só automatizou a estrutura de testes do sistema, como ajudou a documentar as regras funcionais que a aplicação nunca teve registradas.
A metodologia desenvolvida ao longo desse projeto revelou um padrão replicável para qualquer profissional ou squad que enfrente o mesmo desafio, consolidando a criação de um turing bot especialista:
“É gratificante ver que minha experiência contribuiu para o desenvolvimento de um turing bot, uma ferramenta que pode ser aplicada por qualquer pessoa dentro da Squadra.”
Para além da curva de aprendizado, ganhos exponenciais de eficiência
A combinação entre a coragem de aprender e o suporte da IA reduziu drasticamente o tempo necessário para dominar a automação. Os resultados finais do projeto ilustram essa aceleração comparando os seguintes cenários:
QA iniciantes sem mentoria sênior: 2 a 4 semanas, com risco de não adotar boas práticas por falta de experiência;
QA iniciante com mentoria sênior: 1 a 2 semanas;
QA iniciante com IA e mentoria sênior: 4 dias.
Com trabalho focado e aprendizado acelerado, Suelen entregou uma arquitetura de testes robusta, escalável e pronta para rodar pipelines de integração contínua.
Essa história é um divisor de águas na cultura de fluência em IA impulsionada diariamente na Squadra. Ela demonstra que a senioridade e a maestria técnica na era da IA não nascem de saber tudo de antemão, mas da disposição para aprender com curiosidade e humildade. Para todas as pessoas que sentem receio de dar o próximo passo, Suelen deixa uma mensagem:
“A humildade para dizer ‘eu ainda não sei, mas vou aprender’ é o primeiro passo. Elimine a crença de que é preciso dominar tudo antes de começar. Foi essa combinação entre pedir ajuda, manter a curiosidade e confiar no processo que me trouxe até aqui, e tenho certeza de que poderá servir de inspiração para outras pessoas.”


